terça-feira, dezembro 23, 2008

Havia aqui algo mais... 

Lembro-me de procurar a alma embrenhado em teias de jogo e de mentira. Anos idos... e velas a toda a haste. Fui conquistando pequenos nadas, que regalaram a visão nocturna do comandante. Alonguei o mapa, rompi com a terra firme, almejei com o vento, sem parar. As horas mortas à ondulação fustigavam-me. Foi-se manobrando... cada vez mais alto o mar, no espaço e no tempo, até que enfim aportava na distracção. Quimeras cada vez mais indefinidas...

E agora? Agora, uma rotura terceira, desta feita com o que lavrara e deslavara a sós. Uma nova vida igualmente fragmentária, igualmente de pedaços. E o fardo da mudança, e o fardo do desnorte. E um fado incerto... permeado de sussurros... sussurra a criança "Pssst estou aqui."; sussurra o artista "E eu? Serrais-me os pulsos quando cerrais o olhar! Reles mortal..."; geme o músico, sem abrigo. Sem palavras. Sempre novos refúgios, escuros qual esquecimento. A côr fica no agora (na ilusão). Finge aquecimento.

Tudo é massa, tudo é mão, e aquele desconforto reconfortante que enjoa enquanto não chega a chuva. A chuva de ser sem intermediários. A chuva de não requerer. A chuva - acontecer.

E entretanto? Há sempre tempo para atear um archote uma outra vez. Pôr fogo a Roma, de quando em quando... cumprir o papel de querer cumprir o papel. Porque ainda não ardeu.

Ainda não morri. Ardo em mim.

quarta-feira, setembro 24, 2008

vicissitudes do ser...
não queria que isto se transformasse nisso.
refraseando
e incutindo a dialéctica
que o sono permite,
vivamos pois,
ainda que na sombra,
ainda que na cave,
na habitação projectada
que mais não é.

contemplo sereno
do alto do baralho de cartas,
desmontado,
como é insurreição da estima o projecto,
como é depressão a confiança no projecto,
como é dura limalha o lápis com que projecto,
desejoso e aspirante
até à hora da dimensão,
apenas.

rasgão no papel,
e outro, e outro,
aonde é que isto pára,
não há fim.
não há força para lamber o dedo,
não há dedo para ir buscar a força,
só um corrimão que baloiça
à beira da desilusão
e de onde fitamos a áspera sensação
de amarrotados esboços,
de decalcar voltas e voltas,
vincos de projecto,
vincos em mim
de não conseguir sentir
o vento fresco e direito da planície,
o resultado,
o próprio.

E tudo isto para plantar uma árvore...
Não vejo o princípio à floresta.
Não vejo o fim à floresta.
O emaranhado é.
Tolda.
Molda
a percepção
de um caminho.
É difícil avançar pelas silvas,
os pés descalços, enrugada a vontade...
Não vejo o fim.
Não vejo...
(está escuro.
apaguem esta inércia.
apaguem a frustração.)

Enfim...
Meio aceso o candeeiro...
Temperando a noite, o amor...
Sobra lá dentro o amor
a uma luz pouco óbvia.

sábado, agosto 23, 2008

the lost feeling
melancholy
yearning for life in dead words

silence it
refrain from it

what else is there to ignite?

ashes fall slowly
sparkles won't lighten
darkness embeds absence

absence of someone
absence of me

the song screams its chorus
but i can't fall in love
can't fall in love with life again

chords fade out
words stop to pulse
heartbeat decays

tomorrow - a weak placebo
today, night lingers
a blurred night
a blurred self

foreign sadness
as if it ain't real
as if it ain't worth it

prolonged
unspoken
dizzyingly low

the whirling fatality
of passing by

(just)

sábado, julho 05, 2008

Um, dois, um, dois.

Montanha de gente que galgo,
palpitante de solidão...
Parece que tudo se encaminha já para lado nenhum.
O tal despropósito geral das minhas capacidades.
A tal rudeza do objecto, limalha de engrenagem espalhando-se ao vento.
Inércia móvel.
Presenças desfalecidas - eclipse.
Na antemanhã da proposta, a entrega do subconsciente ao prenúncio agastante.
Terror de não haver como tornear o que foi e é labirinto.
Deserto espelhando o quente difuso dos grãos que é preciso arrastar a cada passo.
Oásis esfumando-se à distância que vai de ser a estar.

A mudança é triste.
Perde-se.
Difícil, difícil... tão difícil...
Adjectivos exauridos
e um desnível na energia.
A vontade invertida à falta de escoamento.
Grande piscina suspensa,
intramarés turbulentas
extraditadas de fora dela.
O riacho é um entretanto,
lapso na humidade
molhado de ervas,
sonhos, emoções...

Pessoa e silêncio.

Um ...

sexta-feira, abril 18, 2008

Procuro qualquer inspiração alheia, e uso-a para me enveredar nos moldes de qualquer criatividade forjada.
Esqueço-me e lembro-me. Sou vago.
Quem é a naturalidade em mim? Reflexão perdida à sombra do silêncio ou do outro...
E o quarto ameaçadoramente igual.
Tenebrosamente iluminado pelo dia que desponta. Espreita-se e tudo é feito. Tudo está feito. Não há lugar à descoberta. Não há lugar... para quem sou?
Calça-se a bota, e terá que servir. Ainda que os pés se molhem nos dias do vendaval.
Caminhamos, plural forçado. Couro mal engraxado, pesando a realidade a cada passo mais.
Até já, mundo cruel.

domingo, março 30, 2008

Por aqui nada.
A velha teia, e a respectiva fixação pela incerteza.
A tremer de estaticidade.
O coração vago e rancoroso.
Antemanhã em nulidade absorta...
O esquecimento de despontar com os sentidos,
e a consciência revoltando-se.
Derivei hoje progressivamente,
declinando o rumo,
a estrada afundando-me em todo o seu alcatrão.

Sensação de erro absoluto...
Mas afinal,
é só um outro dia.

Valha-nos a regeneração
enquanto não formos cinza.

sábado, março 15, 2008

Os dissertantes
procuram ao caminhar
as altitudes
de escrever o vinho,
de procurar
embriagar
a incerteza de estar.

Ladram ao vento
os cães da planície
que poisa o mundo
e alisa ao fundo
da caminhada
o Sonho Apagado,
dissipação.

A côr das nuvens,
quando branca,
é a aura da montanha
que coroa
o espírito e desenha
a canoa
que dormita sem manha.

O seu adeus
é o sol posto,
os tons rubros
nostálgicamente.

Oh, linha do horizonte,
és o cais em que aporta
o silêncio de Tudo
e o som de Nada,
a quimera maíuscula
de que se vangloriam
contradizendo-se
os Neófitos...

Sorrio hoje
a tristeza íntima
dos nómadas,
alegre de passagem
na alvorada
que o Sol invoca
no coração cego
das horas.

Oh,
como choro
quieto
este país
estendido à verdade
das auroras
interiores,
este local em que sitio,
afinal,
a mentira da ocupação
que enfim adormeço
num ponto final.

Maré de palavras,
as frases soltas,
nenhuma onda
encontra a quilha...

Pedaços de vida,
museu do eu,
para que tu vejas,
para que tu vejas...

A rotunda tem música
e eu tenho regras,
há que violar
a pauta
para que nasça
a flauta.

Alegrem-se,
árvores laterais,
que a viagem
é.

(Turbilhão)
(Paz e vento)
(Oriente)
(Ocidente)

Fina flor
que desponta
no asfalto...

Vruuuum.
Semeiam sonhos
os infantes
esquecidos,
abandonados
à beira da estrada.

Congeminam maravilhas
por essas mesmas milhas
de permeio.

O esturpor,
o freio
e o rigor
procuram revoltar-se...

Mas antes,
ecoa a fibra
que tudo liga
e era a aragem
que aqui deixa uns pós
reminiscente.

quarta-feira, março 12, 2008

Tem vezes em que só me apetece desfazer da clausura, em que sinto uma necessidade asfixiante de desenterrar a pureza do esforço e da continuidade do esforço. Remeter de volta toda a discrição do consolo que é o hábito, pequenos impulsos meramente fáceis, simples esquissos de anestesia frustrada. Reorganizar a mente, a palavra, o sonho e a aproximação. Regressar. Reconquistar, dir-se-ia quase. Primeiro recolher, e por fim reagir novamente... São estas as palavras desta noite em que me custa o pasmo existencial e a inércia redundante, por contraste ao interior batimento do coração.

domingo, março 09, 2008

Inspiro-me
nos teus olhos.

(tudo a desfocar-se...)

Um fascínio natural
soergue-se do medo
e suspira a memória,
dobrada a esquina lúcida.

Encontro a criança
impossível,
intangível
nos contos que foi
o sonho ido,
o sono vivido
em serena emoção.

Percebo o que é
o sublime.

Regresso a mim
de mim.

Aguardo
a tua presença
celestial
que desnudo
utópicamente
da distância triste
que é a minha luta
contra a minha mesma
distância...

a minha mesma distância,
repito,
algo irritadamente.

Tudo isto se passa ao de leve,
no poema
de fim-de-tarde,
o coração pulsando ao de leve
as tonalidades do pôr-de-sol
e o não querer deixá-las partir
noite e sombra fora...

...o cintilante verde dos teus olhos...
...encarnação viva da eternidade...
...para lá de limiares estéticos...
...o verde suave e absoluto dos teus olhos...
...e sobretudo,

tu contida neles.

sábado, março 08, 2008

Perseguindo muralhas estéticas
mergulhavam na fossa comum
os alcoviteiros da Liberdade.

Tenho dôr para dar. A dôr da realidade,
vertida sussurrada
ao meu ouvido incrédulo,
teimosamente surdo ao eco do espelho.

Não ultimo a concepção. Sou ligeiro,
e custa-me verificar a diferença
sem a alma que sustenta,
sem os anos segurando a rede
de que pressinto o baloiçar
hipotético
por outra dimensão.

Abafado,
o canto ergue-se de poeira,
pueril
como mais esta madrugada -
e afinal, amanhece tarde
pois as nuvens, que foram água,
que seriam correnteza,
são hoje a ditadura da sombra
por onde espreitam os murmúrios,
por onde espreita a palavra.

A mim,
indiscretos amantes do consensualismo.
Dubito-vos mas sem punhal.
Não enxergo o punhal que vos rasga a saia
de rodar
colorida de sociedade,
imposto fluxo
de energias falsas,
razões sonoras, tão somente.

Critico assim migalhas
atiradas aos pombos,
fazendo referência
a algo mais definido
que se me escoa pela mão rugosa,
esburacada à seiva do Sonho.

Escorre-me alguém que me habitava
a aspiração.
Quem era?

Ping... ping... ping...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Excertos de arte não escondem a ruína.
Gloriosamente só. A palavra vem e finge articuladamente, nos espaços vagos que a isso a forçam. Facilitismos, até à hora da verdade.
"Vá, e agora?"
Não pago com o espírito. Sou silente.

Vou portanto às putas.

Aos poucos se polvilha assim a possibilidade, e a tão importante sensação de continuidade. Aos poucos se firma a escassez de recursos que a solidão traz e impõe ao esforço. Aos poucos é mais nítido e seco o quadro do dia-a-dia. Nele figura um rapaz de pincel na mão, estendido num sofá, sem técnica para dar forma aos edifícios, visíveis somente os rasos alicerces da imaginação.
Pago para que algum esboço de contornos anime a paisagem de escombros. Peço tinta emprestada à proximidade. E por vezes ela existe para que sobressaia novo estímulo na construção. E por vezes, é bela a pedra de memória que se ajunta às outras pelo quadro do que passa. Como em toda a interacção.

E momentos sucedem-se a momentos. Entorno pela escrita traços e côres que são já incontornáveis, ao longo dos meses e anos. Evoco assim, como que brindando, aquelas que se dispõem à demanda por Eros, as que se aliam ao artista em moldes de almejar, aquelas que lhes inspiram o imortal sentido de divindade de que é feito o esplendor.

Às putas!
(tchin tchin)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Enquanto Conan procede à cremação do corpo da sua amada, Subotai assiste, deixando rolar algumas lágrimas. Akiro, o mago, intriga-se então:

- "Why are you crying?"
- "He is Conan... Cimerian... He won't cry. So I cry for him."
Trespassando a inspiração, lâminas acordadas. Severas de impulso... Assim é quando se desce a rampa da virtude, o âmago da multiplicidade, apertando junto ao peito tudo o que é insaciável.

Meus amores, florescei!... As tropas pilharão esta terra, cálidas, como o Sol Nascente que a assola. Mais que tudo, mais que a Morte, hoje é o Ser, a Invasão! Letras espreitando por papiros de paisagem, procurando despojar de si as tocas, agitando-se borbulhando por este paraíso fétido. Engodos do que é, forçai a passagem pela dureza física dos portais. Desentalai-vos do círculo, atentai contra a mediocricidade, toda e qualquer!! É nascer, rebentar as águas, e transbordar portentosos legados de ânsia guerreira no primeiro chôro de uma vida.

Somos nós, portadores da palpitação; desencadeamos o Apocalipse. Não há mais - é a vida, a vida, A VIDAAAAA. E bradaremos a vitória, com um urro.

Os modernos e a popularidade (soneto sociológico)

Contemporâneos doutrinavam lantejoulas
onde antes era o clima, a aragem;
cepticismos decalcavam por argolas
o eco e o aroma da vantagem.

E a loucura intimidada profanáveis
exultando a malícia dessas vestes
de que os anjos caídos enfeitáveis,
luciferianas horas e agrestes.

O público discorre, sintomático;
obstando à luz visual sabor
uma batuta sem maestro - plateia.

Diploma de um sonho catedrático,
egocêntrico cego esplendor;
ferramenta e ego - ser sereia.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Tremo, no topo da corda... os pés enroscando-se ao se aperceberem da falta de aderência. Pequenos passos de urgência servem apenas para confirmar a desilusão. Não há pano de fundo. Esforço-me, mas só pontualmente tons de verde obscuro parecem distrair o vácuo cénico de seu absoluto. É nulidade de que me preencho, por esta grande corda pendente sobre o abismo. Não se vê quem pega nela do outro lado, mas dá a sensação que se esquece disso indiferente, quando ela abana à brusquidão delineada por movimentos conceptuais, numa física distante e outra. Insatisfatório ao longo da vertigem, o passo adquirindo sensações de queda, mais que preconizando. Diáriamente... os passos de ninguém..

terça-feira, janeiro 29, 2008

E chego a esta hora e estou disperso... Como um punhado de pássaros abalroado pelas águias da incursão. Visível, mas inconcluso, o vôo das palavras. Palpita o estanque do sangue nosso (meu). Para trás, a coesão. Prossegue para Norte o sopro do vento, segregando o tempo, nova moradia de quando há só um limitado acompanhamento, insatisfatório na migração - o dos pássaros fugazes esbatidos em pequenez.

Dou a mão à palmatória. Posso apenas sublinhar o conceito de crença - pois que é tudo. (Bem como o de exagero, que é vida.)

domingo, janeiro 13, 2008

E este de agora, contrastando:


Abandonei o saco de viagem,
desisti por omissão.

Vendi-me - renúncia -
e os grilos que cantam baixinho
estão lá.

Perturbante zumbido.
Nisto, forma-se a sensação
de que estou gasto.
É todo este som sem mim
onde deveria estar
todo um conjunto de notas
a resolver as tensões
e a restituir harmonia...

Desci a mim,mas voltei a ficar calado
na escuridão feita de antecipações
que é a mensagem por mandar,
que é o número por marcar,
a suspensão indefinida.

Alguém me solta desta rede?
Da mesma noite que o post anterior:


Mas sim, conta-me histórias.
Conta-me histórias, que o tempo é aqui...

O passo é quente e a neve funda.
E o silêncio dos cumes é belo
pois é para lá dele
que está esse canto absoluto,
essa paisagem autêntica, nova,
esse sonho translúcido,
melodia que preenche
e que não sei transcrever,
que não sei vazar.

Conta-me histórias dessas altitudes...

que eu escorro a neve intrometida nas botas
para poder escalar mais umas rochas,
para poder ouvir mais de perto,
histórias fantásticas,
mais e mais perto.

domingo, janeiro 06, 2008

Estendo brevemente a mão e pesquiso o ar. Ligeirezas pelas quais me vou dispersando, este dia que gradualmente é a passagem por itens, quase que querendo sintetizar e reduzir a vida... Ao lado, talvez, de maiores desafios - um vislumbre da largura do palco, e procuro agora distrair-me no quarto da maquilhagem. Recordo o que significa fraqueza: não é medo, pois esse é inevitável e ingrediente; nem é ficar aquém, pois que só podemos dar passos, sem garantias de declive e de firmeza que as do solo onde os dermos. Fraqueza é quedar-me recostado na cadeira inconsciente, tricotando esboços de espectáculos, e nunca seus actos de inteireza, repetindo visualizações, mnemónicas de espaços fotografados há muito, querendo cingir-lhes o sentido de presença, repercutir a suficiência que lhes incute a percepção direccionada, coagida pelo hábito, discretamente evitando a sugestão de fins outros onde se pressente o desconhecido, o perigo do desconhecido. Nessas alturas sim, se perde o comando, se perde a personagem, se minimiza inadvertidamente o explorador - e é o arame farpado o cobertor em torno das grandes colinas caiadas de gelo reluzente que há, em nós, por desafiar. São elas mesmas quem reflecte a artificial desatenção e quem, como todas as colinas, lá longe mas de uma imponência incontornávelmente próxima, nos faz sentir, por mais que desviando o olhar, qual a proporção real de ficar. Mostram-nos como é falsa, fútil até, a vida confortável no vale dos caminhos trilhados e dos parques arquitectados. A extensão da cordilheira mostra-nos a imensidão do ser, e é tempo de o relembrar.

Soe o relâmpago! É tempo de afundar as mãos no barro. É tempo de lhe arrancar todos os moldes, com todas as garras, e com todo o direito. Sermos de novo a música, sermos de novo o filme... Mas cantemo-la então! Representemo-lo!

E assim finde épico este apelo ao princípio.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Sonhos que os teus dedos tecem...

E quando perguntares de que sou feito,
que deverei responder?
Talvez que sou um sonho refeito
sem de o quê saber.
Talvez que pelo mar contrafeito
seja um marujo sem ter
mais que a alma, fustigada ao parapeito
dessa vista a perder
que é o oceano, o teu leito.

Talvez que de entre as ondas e a espuma
emerja, Neptuno, a Verdade;
imponha-se a quilha à bruma
desfazendo gotas ansiedade
pela qual navega sem estrelas. Ruma,
sonhador sem rumo - saudade
de artes profundas e belas, em suma.
Estranhas distâncias que a idade
acresce à paisagem que esfuma,

ao céu de divinas texturas...
Me abandonam porém ao escrevê-la
as suas espirais, as tonturas.
Olho p'ra o alto - conhecê-la
é sentir suas áureas partituras
percorrer os ouvidos de vê-la,
difundir que as telas são duras
para agarrar as tintas dela -
que a Arte renasça em gravuras.

Que nestes confins, nos rochedos
morras em mim, eremita.
Que as forças dela galguem medos,
as forças que emana, bonita
como o musgo que cobre os penedos,
como a vida que a chuva suscita
por solos ásperos enfim ledos
após do temporal a visita.

...Sonhos que tecem seus dedos...

por novelo tendo o que trago
em ambições do passado,
aquele que me orientava, o mago
de cuja performance aliado
um desejo, não dormir o lago,
romper as marés que batem contra o enfado.
Almejar mais que eu, estando pago
o Paraíso e a Pertença. Dourado,
bebo, urgente trago,

o sol que poisa os dias
em que o pintaram forças minhas.
Laranjas tons estes dias
a recolorir forças minhas.